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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Desafios da transição

A NOVA SIÃO FUTURA 

Antigos livros contam que, desde muito tempo, baseado na posição dos astros, à mancheia o homem pressagia insucessos e bem-aventuranças. É inegável que a chamada Era de Aquário trouxe consigo bons presságios para a humanidade! Bilhões de espíritos saudando o novo amanhecer! No pensamento religioso tradicional, eis que a passos largos, o Salvador se reaproximara dos mortais pecadores! Na visão mística do iniciado, os grandes avatares tinham sustado o carma terreno, promovendo a tão sonhada elevação planetária! E para adeptos da fé raciocinada, a imensa maioria dos encarnados neste orbe já é composta de almas venturosas! Com a impossibilidade de aqui reencarnarem os espíritos avessos às mudanças, num átimo o campo vibratório do planeta sofrera alterações significativas! Hostes dedicadas à prática e difusão dos instintos castradores do verdadeiro progresso retrocederam à aproximação da Luz! Pelas declarações verbais e promessas de mudanças de conduta de determinados contraventores ecriminosos confessos, deduzia-se que, muito breve, todo o bem triunfaria no mundo. Logo, dentro de alguns lustros, a Terra achar-se-ia regenerada! A evolução planetária se consumaria "godorinha-godorinha" na expressão ingênua que certa vez ouvimos de uma criança de três anos relatando um fato a suceder-se em curtíssimo prazo.

Forte sopro de otimismo e esperança invadia o íntimo de todos aqueles que, de alguma forma, esforçávamo-nos pela transformação moral, como procedimento para o advento do mundo de regeneração. Em verdade, quando raiaram os primeiros albores da década 80, a humanidade parecia estar acordando de um sonho fatídico. Enfim, após o longo e escaldante verão da insensibilidade. a semente do bem germinava e desprendia-se do carreiro ressequido e propositalmente desprezado pelo lavrador. No sulco arenoso das ervas daninhas que cresciam e se reproduziam vertiginosamente, brotava afinal a pá da consciência oferecida pelo Semeador! O luar esplêndido do amor universal raiava no sítio dos equívocos e paixões humanas, e o veleiro da luz interior ancorava na costa acinzentada das convenções e interesses mesquinhos. Consideravam-se em crise os conceitos, sistemas e teorias engendrados pela própria inteligência humana para tentar explicar toda a Vida e a Criação. Teriam mesmo os homens se cansado de lutar uns contra os outros? Travariam intensos embates, mas consigo mesmos, vencendo os defeitos e imperfeições da alma. Como diz o poeta: milênio sob milênio, completava-se o ciclo de mira-celi!

Era a Sião futura do profeta Isaias, onde deserto e terra exultariam em plena abundância e os desalentados alegrar-se-iam, não mais se deixando abater pelo desânimo. Como servos, os coxos saltitariam. Dos cegos os olhos seriam abertos. Os saberes do mundo encontrar-se-iam na linha em que o apito do trem apressa os surdos e se ouve a língua dos mudos. Nos semi-áridos as águas arrebatariam. Nos ermos os ribeirões jorrariam puros e cristalinos! As areias quentes transformar-se-iam em lagos profundos. Ali haveria bom caminho, por onde os resgatados fariam o trajeto de volta para Deus, sem o gemido e o ranger de dentes das últimas gerações.

Neste lindo sonho de risonho porvir, humanistas e filósofos salvaguardavam a Terra da promissão. Homens de bem eram condecorados por defender a fauna e a flora. Pacifistas e missionários recebiam altas comendas. Jardineiros e poetas eram agraciados em folhas de jornais. As entidades de proteção e preservação da natureza contavam com a efetiva ajuda de governos e populações. Mares e oceanos, florestas e extensões paradisíacas estavam definitivamente preservadas. De impressionante e fantástico, o planeta azul adquiria tons cada vez mais belos e admiráveis. Nunca mais os empréstimos celestiais seriam vilipendiados, porque o Adestrador havia forjado no lobo agressivo um ser melhor e maior! Não tinha sido vão o martírio dos heróis defensores da vida!

A DIGNIDADE DO ESPÍRITO

Com o advento da tecnologia de informação, o processo comunicativo se aperfeiçoava. Os indivíduos aproximavam-se pela facilidade de intercâmbio. Radares ultra-sensíveis entravam em conexão com as distâncias siderais. Em tempo real, aparelhos eletrônicos vasculhavam o inaudito, trazendo som e imagem do mundo dos espíritos. Em rede mundial, noticiava-se a sobrevivência ao fenômeno da morte! O contato com o Invisível dar-se-ia de maneira ostensiva. Os espíritas, por sua vez, haviam triunfado da má-vontade, resistido no esforço e assimilação à Grande Causa. E a reencarnação, que havia saído do terreno meramente especulativo para se tornar um ramo da psicologia clínica, despertava a atenção geral. Agora, o doente teria informações precisas sobre a causa de seus males. A conduta médica seria fortalecida pela diagnose espiritual. Em cada esquina, ou, ao menos, em cada bairro haveria um centro anunciando o cristianismo redivivo! A fé raciocinada seria compreendida e praticada.

Concorridos padrões de prazer, beleza e felicidade achavam-se irremediavelmente superados: Em vez de suntuosas construções para a preservação e contemplação da luxúria e da vaidade; em substituição aos imponentes cenários para o festejo da intemperança e da alucinação; no lugar dos exuberantes carros alegóricos para o transporte do efêmero e do inútil; em substituição às celebridades colocadas em patamar de quem se acredita ter vindo ao mundo quais estrelas luminosas ofuscando suas irmãs menos brilhantes; em vez do interesse mercantilista do religioso e do cientista colocando lucro fácil acima das doutrinas, os teóricos e amantes da arte passariam a valorizar a simplicidade. Os mais abastados socorreriam aqueles que dependiam de uma humilhante esmola para o sustento dos seus. Caíam por terra as muralhas erguidas à base de cimento e vergalhão. Em plenário, todas as ideologias do totalitarismo perderiam assento.

Irradiava-se um novo tempo sem discórdias nem destruições. O exercício da política ficava desvinculado de decretos e convenções unilaterais. De seus estatutos as instituições riscariam todo o parágrafo preconcebido e corporativista. Injúrias e corrupções eram práticas extintas. A ética fazia-se representar por diplomatas e embaixadores. O malfeito dos governantes era compensado por atitudes voltadas para o bem comum, tema restrito ao interesse de sábios e pedagogos. Ícones e autoridades globais falavam da revisão de clichês e tabus sobre a vida e a criação. Diminuía o número dos que viviam ao largo da sociedade. A miséria, o medo e a fome eram peças de museu! Neste sentido, o termo marginal seria abolido dos dicionários. A corrida armamentista cedia aos anseios da paz universal. Os conflitos entre as nações eram simples lembranças de um passado cruel. A flor vencia os mísseis e ameaças de ataques radioativos.

Aqueles dias transcorriam com notável leveza rumo ao novo milênio que se avizinhava promissor. O calendário terrestre seria contemplado por sucessivos cometimentos de serenidade e enlevo espiritual. Dentro em pouco, os corações impregnados de mágoa e ódio deixar-se-iam envolver pela inabalável força da fraternidade há tanto ensinada pelos Espíritos Superiores. A imprensa, a academia, a justiça catalogava e classificava os fatos de maneira imparcial, e neste rol estavam os tópicos sobre a realidade do Espírito que deixaria de ser mera elucubração na pauta do educador. Mentalidades formadoras de opinião falavam abertamente sobre as questões magnas da humanidade, a saber: De onde viemos, por que estamos na Terra e para onde iremos quando dela sairmos! Nas artes e ciências, a "Morte" deixava de ser um tabu. Comprometido com a reforma íntima e não apenas com a formação, o novo educador estendia o assunto para além da mera especulação.

No funcionalismo público peculatos e subornos não mais existiriam. O rigor e a disciplina no cumprimento do dever achavam-se cuidadosamente garantidos. A honestidade e o respeito estariam virtudes manifestas! O princípio da qualidade total tomava conta de empresas e estabelecimentos. Patrões e empregados exemplificavam os valores da transparência nos gastos. No erário nacional, as planilhas e contas públicas apareceriam perfeitamente concordes com o juramento de seus executores. Ocupando lugar de destaque como nação pacífica, o Brasil prometia maturidade no proceder de lideranças políticas e religiosas que exaltavam e se orgulhavam da pátria e o evangelho. Ao vivo, o Inferno pincelado por Dante tinha sua razão de existir, e o Céu penosamente vislumbrado por Madre Tereza adquiria um significado. A religião pontificava a revisão de postulados e teorias clássicas que haviam ocasionado desavenças históricas.

O ecumenismo era quase uma realidade sentida e vivida em seu perfil sublime de convivência sem máculas à liberdade de crenças. Muitas denominações ortodoxas passavam a incrementar também seus próprios canais e departamentos de arte, diga-se, profana, e obteriam o reconhecimento público, influenciando patrocinadores e roteiristas leigos. Por outra parte, catucados pelo pensamento cardequiano, setores diversos da arte dita laica incluiriam a imortalidade da alma em seus argumentos. Mas era breve o sopro de otimismo que impregnava de amor a abstração dos homens! Enquanto isso este mesmo cinema, este mesmo teatro e este mesmo rádio e telenovela investia em muitos enredos, dramas e transmissões corrosivas à Educação...

A TESE DE JESUS

Mas algo estava faltando, desde que somente pela relação pacífica com os contrários e adversários podemos medir nosso nível de elevação espiritual. Daí o imperativo da convivência fraterna entre pessoas que pensam e agem de modo diferente. Restava, pois, saber se a argila sedenta do coração dos homens, de fato, se converteria assim de repente em mananciais de amor, passaporte da verdadeira elevação.

E, enquanto a ciência avançava velozmente, recrudescia a luta nos bastidores das leis civis que insistem em defender e manter costumes em desacordo com o conhecimento adquirido. Infelizmente, na noite trágica e silenciosa da humanidade, muitos equívocos ainda precisam ser cultivados com esmero, e o próprio homicídio vem a ser mantido como lei imperecível dos mais fortes sobre os mais fracos. A execrável criminalidade, assinalada em quase todos os lugares, encontra espaço para também se aprimorar e acompanhar os avanços da era moderna!

Consequentemente, logo nos anos seguintes o panorama mundial se modifica. Alguns presidentes de nação dão início a rumoroso processo de insubmissão à Paz. Grupos de revoltados extremistas articulam e perpetram extermínios em larga escala. Em março de 2003, malgrado o clamor das viúvas e dos órfãos, a aliança entre países desenvolvidos dá início à invasão a nações rivais, deixando clamoroso rastro de desolação militar e civil. Rumores de guerra são ouvidos nos quatro cantos do mundo. Governantes claudicam na invigilância e são, em horário nobre, subtraídos pelo absolutismo da rapinagem e do desmando, que determinarão considerável tempo para reajuste perante a Economia Divina. Insiste-se na preparação e posse de sutis e traiçoeiras armas químicas que permanecem de prontidão conservando o princípio da hegemonia bélica. Em detalhes e cenas horripilantes, a barbárie ascende assumindo proporções gigantescas. E aquela alvinitente e sugestiva noite de novembro, que havia concebido a queda do Muro de Berlim, arqueja, soluçante, nos braços do Cristo Consalodor para não se ocultar na História!

Ainda precisamos entender que o trabalho no Bem deve ser constante e sempre comparado com a mesma euforia que temos num dia de domingo farto de ternura, carinho e mesa enfeitada pelo sorriso das crianças e pessoas que se nos afeiçoam. Falta-nos compreender melhor a Mensagem Cristã a nos lembrar que a caridade pura provém da misteriosa fonte divina, e só o serviço desinteressado ao próximo arrebata os corações mais insensíveis. Somos muitos os doentes da alma, pelo simples fato de, no mínimo, pensarmos somente em nosso bem-estar. Por algum tempo, ainda necessitaremos da enfermidade conselheira, talvez porque o enfermo tende a não desejar a infelicidade alheia, querendo sempre que o outro esteja são, até mesmo para ajudá-lo a curar sua doença.

Não temos dúvida de que a todo instante somos visitados pela misericórdia do Pai. Mas é necessário caminhar por si mesmo. A Doutrina Espírita ensina que é lenta a conquista da autonomia espiritual. O conhecimento das coisas, por maior que seja, se ainda não foi cristalizado na alma em benefício do próximo, é incapaz de determinar a reforma íntima. Nas sociedades, a nível de humanidade, a afirmação do saber real só se completa ao longo do tempo, mesmo porque requer a anuência de um grupo muito grande de indivíduos com os quais evoluímos e amadurecemos juntos como uvas de uma mesma parreira. Sabemos que há um limite definido entre o livre-arbítrio dos homens e o determinismo estabelecido por Deus, pois se assim não fosse, o mal poderia triunfar para sempre. Nos códigos do Criador, todos os estados de desarmonia têm seu encerramento previsto. Mas, refletindo bem, entenderemos que não é através de concessões especiais que se cumprem as Leis do Espírito.

Em fisiologia, aprendemos que quando repetimos sistematicamente, automatizamos os impulsos. Assim é que, através da ação e da vontade constantes, adquirimos o patrimônio moral e intelectual. Estes ímpetos são aplicados em sentidos diferentes, a depender do modo-objeto como foram automatizados. O sonho de uma criança é ter uma loja repleta de bom-bom. Só bom-bom! Um apartamento com um saco de Papai Noel cheinho de presentes! Eita! (Como se diz no Nordeste) Só presentes! Uma mãe ou um pai que lhe dê amor e carinho. Só amor e carinho! Mas que faz, que pode fazer uma criança para conseguir realizar e viver estes sonhos dourados? Com exceção da lei de responsabilidade que, a priori não vige na idade infantil, tal somos nós diante do domínio da vontade. Qual bambino de reduzida idade mental, queremos erguer à nossa volta construções belas e duráveis, mas não estamos ocupados com a aquisição das ferramentas próprias. Após incontáveis gerações gastas em finas mesas de bebida, fascinantes jogos de azar e outras tantas frivolidades, apostamos em nossa santificação e na sublimação imediata detudo o que nos rodeia, sem tomarmos atitudes concretas que possam conduzir a tais feitos.

Muitos de nós desejamos, ainda, por certo tempo, viver na ociosidade porque acostumamo-nos a ausentar dos nossos problemas. Preferimos a distância dos inconvenientes. Mas, a cada dia, o Cristo se aproxima dos homens, ajudando-os a enfrentar grandes desafios. Mensageiro da outridade, Ele solidariza-se com a dor anônima, frustrando guerreiros e senhores de exércitos. Em seu nome, a cada instante as trevas são dissipadas no trecho solitário da jornada. Por sua causa as mais difíceis horas de angústia no mundo passam. Conselheiro da esperança, paramenta os mais desiludidos. Espírito da Verdade, demonstra o amor incondicional da Inteligência Suprema a todas as criaturas, sem, portanto, desenvolver uma tese; sem cumprir, sequer, uma formalidade. Sem fazer nenhuma exigência!

Tudo precisa ser analisado no seu contexto. Mas resta-nos, contudo, a certeza de que o Bem prevalecerá e que a nova e alvissareira ordem de princípios anunciada entra em evidência. Ansiosos pela morada dos justos no Infinito, bendigamos àqueles que, mesmo reconhecendo seus limites e imperfeições, já descobriram que também são Amigos de Jesus. É o homem que precisa andar silencioso pelos tristonhos caminhos do mundo. Altruístico, volta os olhos para a Caridade. Sem olhar a quem, doa o melhor de si. Cireneu dos tempos atuais, por amor ao Mestre, ajudará a carregar a cruz e o pranto dos aflitos. E quando for chamado a subir rumo aos céus, também preferirá ficar aqui na Terra, entre seus irmãos, servindo alegremente, até que o último sofredor alcance um lenitivo. Somente então, o ser imortal se desprenderá de vez de suas pesadas asas de chumbo, e seguirá, venturoso, rumo às estrelas menezianas, onde um dia todos poderemos estar, para sempre, regenerados e felizes, em nome de Deus!"


Idemar Marinho

Compositor, servidor público e expositor de Doutrina Espírita.
Grupo Espírita Voluntários do Bem- São Gonçalo/RJ