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domingo, 18 de dezembro de 2011

Seria a vida um constante possuir?

 

Por Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol)


No homem existiu sempre, por lei natural, a inclinação para a posse; possuir uma coisa constituiu-se em todas as épocas um prazer, experimentado desde o momento em que se pensou na posse até seu alcance. Isto, naturalmente, dá um conteúdo à vida durante todo o tempo em que se mantém vivo o pensamento da posse; se está sob uma sensação agradável, que chega a presidir a vigília e até o sono, sobretudo quando se produz a aproximação do desejado. Observe-se como, enquanto dura e se realiza a aspiração, o ser vive feliz com tal perspectiva.




Sendo que a vida humana é um constante possuir, a maioria ignora, não obstante, como é possível cumprir este desígnio sem que cada posse, em vez de dar felicidade, produza tormento e aflição. Há que criar, para isso, a capacidade de posse. Há que saber o que se quer possuir, e saber, também, se tal posse haverá de identificar-se com a vida e será elemento fértil para o cultivo de futuras prerrogativas. Deve-se possuir, então, aquilo que brinde felicidade com projeções ao eterno, para que esta não seja efêmera. Esta verdade, que é uma lei que abre muitos princípios, que toca todas as ideias deve ser para cada um o sol que ilumine os dias da existência.





O conhecimento é uma das posses a que mais deve aspirar o ser humano





Muitas vezes se tem visto as pessoas sentirem felicidade enquanto buscavam por todas as partes do mundo a posse de um selo, a qual manteve viva nelas a ilusão de encontrá-lo; uma vez em suas mãos, e colocado em um álbum, este se fecha e acaba ali a posse. Tal fato constitui a própria negação da posse, porque toda coisa nova que se possua deve enriquecer, desde esse momento, o acervo pessoal e tudo quanto forme a própria vida, aumentando a felicidade, a alegria e oferecendo uma nova possibilidade.



Eis aí, pois, como o homem pode traçar para si uma norma de conduta, procurando na posse de algo que lhe embeleze a vida ou lhe dê conteúdo, o vigor do qual tanto necessita a alma nos momentos difíceis e que tão somente lhe pode dar a felicidade sabiamente experimentada e vivida, e a alegria e a confiança no que possui. Não é olhando para aqui e para lá, a fim de dizer "Isto me agrada, e isso também, e aquilo e mais aquilo”, como se poderia encontrar prazer para muitos dias, senão que esse prazer há de achar-se na segurança de sentir-se dono do que já se possui e em saber que ainda se pode chegar a possuir muito mais, com inteligência e bom juízo.



É necessário dar à vida um conteúdo, e este pode ser aumentado em seu volume pela qualidade das posses a que se aspire e pelo número obtido delas. O conhecimento é uma das posses a que mais deve aspirar o ser humano, visto que a posse do conhecimento facilita a posse de tudo mais. Então, ainda que em um determinado momento se perca integralmente o material, se conservarão intactas as posses espirituais. O material poderá ser reconstruído, poderá ser novamente possuído; mas nunca caia o homem na aberração da conquista material exclusiva, pois lhe faria perder o patrimônio do espírito, de essência eterna.

Trechos extraídos do livro Introdução ao Conhecimento Logosófico, p. 184