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domingo, 8 de agosto de 2010

CONVERSÃO...VALE À PENA LER.

Revista Espírita, janeiro de 1858

Allan Kardec

A evocação seguinte não oferece um interesse menor, embora em um outro ponto de vista.
Um senhor, que designaremos sob o nome de Georges, farmacêutico de uma cidade do sul,
tinha, há pouco, perdido seu pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O
senhor Georges, pai, unia, a uma instrução muito extensa, todas as qualidades que fazem o
homem de bem, embora professando opiniões muito materialistas. Seu filho partilhava, a
esse respeito, e mesmo ultrapassava, as idéias de seu pai; duvidava de tudo: de Deus, da
alma, da vida futura. O Espiritismo não poderia admitir com tais pensamentos. A leitura de O
Livro dos Espíritos, entretanto, produziu nele uma certa reação, corroborada por uma
conversa direta que tivemos com ele. Sim, disse ele, meu pai poderia responder, não duvido
mais. Foi, então, que teve lugar a evocação que vamos narrar e na qual encontraremos mais
de um ensinamento.
- Em nome do Todo-Poderoso, Espírito de meu pai, peço que vos manifesteis. Estais perto de
mim?." Sim." - Por que não vos manifestais diretamente a mim, quando nos amamos tanto?
"Mais tarde." - Poderemos nos reencontrar um dia?>"Sim, logo." - Amar-nos-emos como
nessa vida?.. "Mais." - Em qual meio estais?. "Eu sou feliz." - Estais reencarnado ou errante?.
"Errante, por pouco tempo."
- Que sensação experimentastes quando deixastes vosso envoltório corporal? "De
perturbação." - Quanto tempo durou essa perturbação? "Pouco para mim, muito para ti." -
Podeis avaliar a duração dessa perturbação, segundo a nossa maneira de contar? "Dez anos
para ti, dez minutos para mim." - Mas não faz esse tempo que vos perdi, pois, não faz senão
quatro meses! "Se tu, vivente, tivésseis se colocado em meu lugar, teria sentido esse tempo."
- Credes, agora, em um Deus justo e bom? "Sim." - Nele acreditáveis quando vivo na Terra?
"Dele tinha a presciência, mas não acreditava nele." Deus é Todo-Poderoso! "Não me elevei
até ele para medir sua força; só ele conhece os limites da sua força, porque só ele é seu
igual." - Ocupas-te com os homens? "Sim." -Seremos punidos ou recompensados segundo os
nossos atos? "Se fazes o mal, sofrê-lo-ás." - Serei recompensado se fizer o bem? "Avançarás
em teu caminho." - Estou no bom caminho? "Faze o bem, e nele estarás." - Creio ser bom,
mas seria melhor se devesse, um dia, vos encontrar como recompensa? "Que esse
pensamento te sustente e encoraje." - Meu filho será bom como seu avô? "Desenvolva suas
virtudes, sufoque seus vícios."
- Não podia crer que nos comunicássemos, assim, neste momento, tão maravilhoso isso me
parecia. "De onde vem tua dúvida?" - De que, partilhando vossas opiniões filosóficas, fui
levado a tudo atribuir à matéria. "Vês à noite, o que vês de dia?" - Estou, pois, na noite, ó
meu pai! "Sim." - Que vedes de mais maravilhoso? "Explique-se melhor." - Haveis
reencontrado minha mãe, minha irmã, e Anna, a boa Anna? "Eu as revi." - Vede-as quando
quereis? "Sim."
- É a vós penoso ou agradável que me comunique, assim, convosco? "É uma felicidade, para
mim, se posso levar-te ao bem."

- Como poderia fazer, voltando para casa, para comunicar convosco, o que me faz tão feliz?
Isso serviria para melhor me conduzir, me ajudaria melhor a elevar meus filhos. "Cada vez
que um movimento levar-te ao bem, sou eu: serei eu que te inspirarei."
- Tenho medo de vos importunar. "Fale, ainda, sé queres." -Uma vez que mo permitis, vos
endereçarei, ainda, algumas perguntas. De qual doença morrestes? "Minha prova estava em
seu final."
- Onde contraístes o depósito pulmonar que se formou? "Pouco importa; o corpo não é nada,
o Espírito é tudo." - De qual natureza é a enfermidade que me desperta, tão freqüentemente,
à noite? "Sabê-lo-ás mais tarde." - Creio que minha doença é grave, e queria, ainda, viver
para os meus filhos. "Ela não o é; o coração do homem é uma máquina para a vida: deixe a
Natureza operar."
- Uma vez que estais presente, sob que forma estais? "Sob a aparência da minha forma
corporal." - Estais em um lugar determinado? "Sim, atrás de Ermance" (o médium). -
Poderíeis nos aparecer visivelmente? "Para quê! Teríeis medo."
- Vede-nos, todos, aqui reunidos? "Sim." - Tendes uma opinião sobre cada um de nós, aqui
presentes? "Sim." - Gostaria de dizer-nos alguma coisa, a cada um de nós? "Em que sentido
me fazes essa pergunta?" - Quero dizer no ponto de vista moral. "Em outra ocasião; basta
por hoje."
O efeito produzido, sobre o senhor Georges, por essa comunicação, foi imenso, e uma luz
inteiramente nova parecia já iluminar suas idéias; uma sessão que teve, no dia seguinte, com
a senhora Roger, sonâmbula, acabou por dissipar o pouco de dúvidas que poderia lhe restar.
Eis um extrato a carta que nos escreveu, a esse respeito. "Essa senhora, espontaneamente,
entrou em detalhes comigo, bastante precisos, com respeito ao meu pai, minha mãe, meus
filhos, minha saúde, descreveu com uma tal exatidão todas as circunstâncias da minha vida,
lembrando mesmo de fatos que, desde há muito tempo, haviam escapado da minha
memória; deu-me, em uma palavra, provas tão patentes dessa maravilhosa faculdade, da
qual são dotados os sonâmbulos lúcidos, que a reação de idéias se completou, em mim,
desde esse momento. Na evocação, meu pai revelou-me sua presença; na sessão
sonambúlica, eu era, por assim dizer, testemunha ocular da vida extra-corpórea, da vida da
alma. Para descrever com tanta minúcia e exatidão, e a duzentas léguas de distância, o que
não era conhecido senão por mim, era preciso vê-lo; ora, uma vez que não podia ser com os
olhos do corpo, haveria, pois, um laço misterioso, invisível, que ligava a sonâmbula às
pessoas e às coisas ausentes, e que ela não havia jamais visto; haveria, pois, alguma coisa
fora da matéria; que poderia ser essa alguma coisa, senão o que se chama a alma, o ser
inteligente, cujo corpo não é senão o envoltório, mas, cuja ação se estende muito mais além
da nossa esfera de atividade?" Hoje, o senhor Georges, não somente não é mais materialista,
mas é um dos mais fervorosos e mais zelosos adeptos do Espiritismo, onde está duplamente
feliz, pela confiança que lhe inspira, agora, o futuro e pelo prazer motivado que encontra para
fazer o bem.

Essa evocação, muito simples ao primeiro contato, não é menos notável com mais algumas
apreciações. O caráter do senhor Georges, pai, se reflete em suas respostas breves e
sentenciosas, que eram de seus hábitos; falava pouco, não dizia, nunca, uma palavra inútil;
mas, não é mais o cético quem fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais
clarividente, que pinta a unidade e o poder de Deus por estas admiráveis palavras: Só ele é
seu igual', é aquele que, em vida, atribuía tudo a matéria, e que diz, agora: O corpo não é
nada, o Espírito é tudo; e esta outra frase sublime: Vês à noite o que vês de dia? Para o
observador atento, tudo tem uma importância, e é assim que encontra, a cada passo, a
confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.