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quarta-feira, 19 de maio de 2010

TEXTO DE LÉON DENIS

Uma observação dolorosa surpreende o


pensador na velhice. Ela se torna ainda mais

lastimável em conseqüência das impressões

experimentadas em seu giro pelo mundo espiritual,

e ele então reconhece que o ensinamento

ministrado pelas instituições humanas

em geral – religiões, escolas, universidades –,

se nos ensinam muitas coisas supérfluas, em

compensação não nos ensinam quase nada do que mais temos

necessidade de conhecer para a nossa conduta: a direção da

existência terrestre e a preparação para o além.

Aqueles a quem cabe a alta missão de esclarecer e guiar a

alma humana parecem ignorar sua natureza e seus verdadeiros

destinos.

Nos meios universitários, uma completa incerteza ainda reina

sobre a solução do problema mais importante com que o homem se

defronta no decorrer de sua passagem pela Terra. Essa incerteza

se reflete em todo o ensino. Uma boa parte dos professores e

pedagogos afasta sistematicamente de suas lições tudo o que se

refere ao problema da vida, às questões de seu objetivo e finalidade.

Encontramos a mesma dificuldade nos líderes religiosos. Por

suas afirmações desprovidas de provas, conseguem comunicar

às almas sobre as quais têm responsabilidade apenas uma crença

que não responde mais à lógica de uma crítica sã nem às

exigências da razão.

A rigor, na universidade, assim como na Igreja, modernamente

a alma encontra somente obscuridade e contradição em tudo que

diz respeito ao problema de sua natureza e de seu futuro. É a esse

estado de coisas que é preciso atribuir, em grande parte, os males de nosso tempo: a incoerência das idéias, a desordem da consciência, a anarquia moral e social.

A educação dispensada às gerações é complicada: não lhes

esclarece o caminho da vida e não as estimula para as lutas da

existência. O ensino clássico habilita a cultivar, a ornar a inteligência,

mas não ensina a agir, a amar, a se dedicar nem a alcançar

uma concepção do destino que desenvolva as energias profundas

do eu e oriente nossos impulsos, nossos esforços, para um

objetivo elevado. No entanto, essa concepção é indispensável a

todo ser, a toda sociedade, porque é o sustentáculo, a consolação

suprema nas horas difíceis, a fonte das virtudes atuantes e das

altas inspirações.



Carl du Prel* relata o seguinte fato1:

“Um dos meus amigos, professor da universidade, sentiu a

dor de perder sua filha, o que reavivou nele o problema da imortalidade.

Ele se dirigiu aos seus colegas, professores de filosofia,

esperando encontrar consolação em suas respostas. Teve uma

amarga decepção: havia pedido pão e lhe ofereciam pedra; procurava

uma afirmação e respondiam-lhe com um ‘talvez’.”

Francisque Sarcey, modelo completo do professor da universidade,

escreveu2: “Estou na Terra. Ignoro absolutamente como

vim e como fui lançado aqui. Ignoro ainda mais como sairei daqui

e o que acontecerá quando sair”.

Não se pode confessar mais francamente: a filosofia da escola,

após tantos séculos de estudo e trabalho, ainda é apenas

uma doutrina sem luz, sem calor, sem vida3. A alma de nossos

filhos, sacudida entre sistemas diversos e contraditórios – o

positivismo de Augusto Comte, o naturalismo de Hegel, o materialismo

de Stuart Mill, o ecletismo de Cousin**, etc. –, flutua incerta,

sem ideal, sem um objetivo preciso.





Daí o desânimo precoce e o pessimismo

desanimador, doenças das sociedades decadentes,

ameaças terríveis para o futuro, às

quais se acrescenta o ceticismo amargo e zombeteiro

de tantos jovens que acreditam apenas

no dinheiro e honram apenas o sucesso.

O ilustre professor Raoul Pictet assinala esse estado de espírito

na introdução de sua última obra sobre as ciências psíquicas4.

Ele fala do efeito desastroso produzido pelas teorias materialistas

sobre a mentalidade de seus alunos e conclui assim:

“Esses pobres jovens admitem que tudo o que se passa no

mundo é efeito necessário e fatal de condições primárias, em

que a vontade não intervém. Consideram que sua própria existência

é, forçosamente, joguete da fatalidade inevitável, à qual

estão ligados, de pés e mãos atados. Esses jovens param de

lutar logo que encontram as primeiras dificuldades. Não acreditam

mais em si mesmos. Tornam-se túmulos vivos, onde guardam,

confusamente, suas esperanças, seus esforços, seus desejos,

fossa comum de tudo o que lhes fez bater o coração até o dia do

envenenamento. Tenho visto esses cadáveres diante de suas

carteiras e no laboratório, e têm-me causado pena.”



Tudo isso não é somente aplicável a uma parte de nossa

juventude, mas também a muitos homens de nosso tempo e de

nossa geração, nos quais podemos constatar um sintoma de cansaço

moral e de abatimento.

F. Myers* também o reconhece: “Há como que uma inquietude,

um descontentamento, uma falta de confiança no verdadeiro valor

da vida. O pessimismo é a doença moral de nosso tempo 5”.

As teorias de além-Reno**, as doutrinas de Nietzsche, de

Schopenhauer, Haeckel***, dentre outros, muito contribuíram para

desenvolver esse estado de coisas. Sua influência se espalha

por toda parte. Deve-se atribuir a eles, em grande parte, esse

lento trabalho, obra obscura de ceticismo e desencorajamento

que se desenvolve na alma contemporânea.

É tempo de reagir com vigor contra essas doutrinas funestas

e de procurar, fora da órbita oficial e das velhas crenças, novos

métodos de ensino que respondam às imperiosas necessidades

do momento presente. É preciso preparar os espíritos para as

necessidades, os combates da vida atual e das vidas futuras; é

preciso, sobretudo, ensinar o ser humano a se conhecer, a desenvolver,

em vista de seus objetivos, as forças latentes que

nele dormem.

Até aqui, o pensamento esteve limitado a círculos estreitos:

religiões, escolas ou sistemas que se digladiam e se combatem

reciprocamente. Daí essa divisão profunda das idéias, essas

correntes violentas e contrárias que perturbam e transtornam o

meio social.

Aprendamos a sair desses círculos rígidos e a dar livre

expansão ao pensamento. Cada sistema contém uma parte de

verdade; nenhum contém a realidade por completo. O universo e a

vida possuem aspectos bastante variados, bastante numerosos

para que algum sistema possa abarcar todos. Dentre essas

concepções absurdas, é preciso recolher os fragmentos de

verdade que elas contêm, aproximá-los e colocá-los de acordo.

Depois, unindo-os aos novos e múltiplos aspectos da verdade

que descobrimos a cada dia, caminharmos rumo à unidade

majestosa e à harmonia do pensamento.

A crise moral e a decadência de nossa época provêm, em

grande parte, do fato de o espírito humano ter se imobilizado

durante muito tempo. É preciso tirá-lo da inércia, das rotinas seculares,

levá-lo às mais elevadas altitudes, sem perder de vista

as bases sólidas que vêm oferecer-lhe uma ciência engrandecida

e renovada. É essa ciência do amanhã que trabalhamos para que

seja constituída. Ela nos fornecerá o critério indispensável, os

meios de verificação e de comparação sem os quais o pensamento,

entregue a si mesmo, sempre correrá o risco de se perder.



A perturbação e a incerteza que verificamos no ensino repercutem

e se encontram, como dissemos, em toda ordem social.

Por toda parte, há um estado de crise inquietante. Sob a

superfície brilhante de uma civilização refinada, esconde-se um

mal-estar profundo. A irritação cresce nas classes sociais. O conflito

de interesses, a luta pela vida tornam-se, dia a dia, mais

ásperos. O sentimento do dever tem-se enfraquecido na consciência

popular a tal ponto que muitos homens nem mesmo sabem onde está o dever. A lei do número, ou seja, da força cega, domina mais do que nunca. Retóricos* mentirosos dedicam-se a

desencadear as paixões, os maus instintos da multidão, a espalhar

teorias nocivas, às vezes criminosas. Depois, quando a maré

sobe e o vento sopra em tempestade, eles se escondem e afastam

de si toda responsabilidade.

Onde está, então, a explicação desse mistério, dessa contradição

notável entre as aspirações generosas de nosso tempo

e a realidade brutal dos fatos? Por que um regime que havia despertado

tantas esperanças ameaça chegar à anarquia, à ruptura

de todo o equilíbrio social?

A implacável lógica vai nos responder: a democracia, radical

ou socialista, nas massas profundas e em seu espírito dirigente,

inspirando-se nas doutrinas negativistas, podia chegar somente

a um resultado negativo para a felicidade e a elevação da humanidade.

Tal o ideal, tal o homem; tal a nação, tal o país!

As doutrinas negativistas, em suas conseqüências extremas,

levam fatalmente à anarquia, ou seja, ao vácuo, ao nada social.

A história humana já teve, diversas vezes, essa dolorosa experiência.

Enquanto se tratou de destruir os restos do passado, de dar

o último golpe nos privilégios que restavam, a democracia serviu-

se habilmente de seus meios de ação. Porém, hoje, o que

importa é construir a cidade do futuro, o vasto edifício que deve

abrigar o pensamento das gerações. E, diante dessas tarefas,

as doutrinas mostram sua insuficiência e revelam sua fragilidade;

vemos os melhores operários se debaterem em uma espécie de

impotência material e moral.

Nenhuma obra humana pode ser grande e durável se não se

inspirar, na teoria e na prática, em seus princípios e em suas

aplicações, nas leis eternas do universo. Tudo o que é concebido

e edificado fora das leis superiores se constrói na areia e afunda.

Acontece que as doutrinas do socialismo atual têm um erro

essencial. Elas querem impor uma regra em contradição com a

natureza da verdadeira lei da humanidade: o nível igualitário.

A evolução gradual e progressiva é a lei fundamental da natureza

e da vida. É a razão de ser do homem, a norma do universo.

Posicionar-se contra ela, substituir-lhe por outro fim, seria tão

insensato quanto querer parar o movimento da Terra ou o fluxo e

refluxo das marés.

Já podemos medir a extensão dos desastres causados pelas

doutrinas negativistas. O determinismo, o materialismo, ao negar

a liberdade humana e a responsabilidade, minam as próprias

bases da ética universal. O mundo moral não passa de um anexo

da fisiologia, ou seja, o reinado, a manifestação da força cega e

irresponsável. Os espíritos de elite professam o niilismo

metafísico**, e a massa humana, o povo, sem crenças, sem princípios

determinados com exatidão, fica entregue a homens que

exploram suas paixões e especulam com suas ambições.

O positivismo*, apesar de ser menos absoluto, não é menos

prejudicial em suas conseqüências. Por sua teoria do desconhecido,

suprime as noções de objetivo e de larga evolução. Ele pega

o homem na fase atual de sua vida, simples fragmento de seu

destino, e o impede de ver para diante e para trás de si; método

estéril e perigoso, feito, parece, para cegos de espírito e que se

tem proclamado, muito falsamente, como a mais bela conquista

do espírito moderno.

Esse é o estado atual da sociedade. O perigo é imenso e se

alguma grande renovação espiritualista e científica não se produzisse,

o mundo acabaria na incoerência e na confusão.

Nossos homens de governo já sentem o que lhes custa viver

numa sociedade em que as bases essenciais da moral estão abaladas,

em que as leis são brandas, frágeis ou superficiais, em que

tudo se confunde, até mesmo a noção elementar do bem e do mal.

É verdade que as Igrejas, apesar de suas fórmulas antiquadas

e de seu espírito contrário ao progresso, ainda agrupam ao

redor de si muitas almas sensíveis; porém, tornaram-se incapazes

de afastar o perigo pela impossibilidade em que se colocaram

de fornecer uma definição precisa do destino humano e do além,

apoiada em fatos comprovados.

A humanidade, cansada de dogmas** e de especulações sem

provas, mergulhou no materialismo ou na indiferença. Não há salvação

para o pensamento, senão por uma doutrina baseada na

experiência e no testemunho dos fatos.

De onde virá essa doutrina? Que poder nos livrará do abismo

em que nos arrastamos? Que ideal novo virá dar ao homem a

confiança no futuro e o fervor pelo bem? Nas horas trágicas da

História, quando todos pareciam desesperados, o socorro nunca

faltou. A alma humana não pode afundar inteiramente e morrer.

No momento em que as crenças do passado se esgotam, uma

concepção nova da vida e do destino, baseada na ciência dos

fatos, reaparece. A grande tradição revive sob formas engrandecidas,

mais jovens e mais belas. Ela mostra a todos um futuro cheio de esperança e de promessas. Saudemos o novo reino

da idéia vitoriosa da matéria e trabalhemos para preparar seus

caminhos!

A tarefa a cumprir é grande, e a educação do homem deve

ser totalmente refeita. Essa educação, como vimos, nem a universidade

nem a Igreja estão em condições de fornecer, uma

vez que não possuem mais as sínteses necessárias para esclarecer

a marcha das novas gerações. Apenas uma doutrina pode

oferecer essa síntese: a do ESPIRITISMO! Ela já sobe no horizonte

do mundo intelectual e parece iluminar o futuro.

A essa filosofia, a essa ciência livre, a essa religião independente, desprovida

de toda pressão oficial, de todo compromisso político, as descobertas

contemporâneas trazem a cada dia novas e preciosas contribuições.

Os fenômenos do magnetismo, da radioatividade, da

telepatia são aplicações de um mesmo princípio, manifestações

de uma mesma lei que rege, ao mesmo tempo, o ser e o universo.

Mais alguns anos de trabalho paciente, de experimentação

conscienciosa, de pesquisas contínuas e a nova educação terá

encontrado sua fórmula científica, sua base essencial. Esse acontecimento

será o maior fato da História desde o aparecimento do

Cristianismo.

A educação, sabemos, é o fator mais poderoso do progresso;

ela contém a origem do futuro. Mas, para ser completa, deve

se inspirar no estudo da vida sob suas duas formas alternantes,

visível e invisível, em sua plenitude*, em sua evolução crescente

em direção aos cimos da natureza e do pensamento.

Os mestres dirigentes da humanidade têm um dever imediato

a cumprir. É o de recolocar o espiritualismo na base da educação,

de trabalhar para refazer o homem interior e a saúde moral.

É preciso despertar a alma humana, adormecida por uma teoria

destrutiva, mostrar-lhe seus poderes ocultos, fazê-la ter consciência

de si mesma, para realizar seu glorioso destino.

A ciência moderna analisou o mundo exterior; suas descobertas

no universo objetivo são profundas: isso será sua

honra e sua glória; mas ainda não sabe nada sobre o universo

invisível e o mundo interior. É esse o império ilimitado que lhe

resta conquistar. Saber por quais laços o homem se liga ao

conjunto, descer às sinuosidades** misteriosas do ser, onde a sombra e a luz se misturam como na caverna de Platão*, percorrer seus labirintos, os redutos secretos, procurar conhecer o “eu”

moral e o “eu” profundo, a consciência e a subconsciência: não

há estudo mais necessário que esse.

Enquanto as escolas e as academias não o tiverem introduzido em seus programas,

nada terão feito pela educação definitiva da humanidade.

Porém, já vemos surgir e constituir-se uma psicologia totalmente maravilhosa e

imprevista, da qual vão derivar uma nova concepção do ser e a noção de uma lei

superior, que engloba e resolve todos os problemas da evolução e do futuro.

*

Nosso dever é o de traçar o caminho à humanidade futura da

qual ainda faremos parte integrante, como nos ensina a comunhão

das almas, a revelação dos grandes instrutores invisíveis,

do mesmo modo que a natureza ensina, por suas milhares de

vozes e pela renovação eterna de todas as coisas, àqueles que

sabem estudá-la e compreendê-la.

Vamos rumo ao futuro, rumo à vida sempre renascente, pelo

caminho imenso que nos abre o Espiritismo!

Tradições, ciências, filosofias, religiões, iluminai-vos com uma

chama nova; sacudi vossos velhos sudários* e as cinzas que

os cobrem. Escutai as vozes reveladoras do túmulo, elas nos

trazem uma renovação do pensamento com os segredos do além,

que o homem tem necessidade de conhecer para melhor viver,

melhor agir e melhor morrer!



Léon Denis. Introdução do livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor.